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Respeito a um pai, ator, irmão preto Milton Gonçalves. Ele voou! (1933-2022)

"Eu sou um negro em movimento" (Milton Gonçalves)

Publicado: 02 Junho, 2022 - 13h46 | Última modificação: 02 Junho, 2022 - 15h02

Escrito por: Secretaria de Cultura CUT-Rio

Divulgação
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Zelão das Artes de “O Bem Amado” foi um dos personagens que desejava voar. Ele conseguiu realizar o seu desejo na icônica cena final da novela. Zelão dizia que “Quem tem fé, voa”. Como a vida imita a arte, Milton voou e nos deixou na segunda-feira(30). O ator morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, em consequência de sequelas de um AVC que sofreu em 2020.

 

Nascido em 9 de dezembro de 1933, na pequena cidade de Monte Santo, em Minas Gerais, ainda criança se mudou com a família para São Paulo, onde foi aprendiz de sapateiro, alfaiate e gráfico. Fez teatro infantil e amador. Milton pouco pode estudar, mas era inteligente, atento e num dia de trabalho na gráfica, ao imprimir programas para uma peça, ganhou duas entradas. Foi assistir à peça e se encantou. Já tinha ido ao cinema, mas teatro, gente “de carne e osso” fazendo aquilo?. Pensou: “Eu posso. Eu também quero fazer isso”. E acabou ganhando um papel numa peça infantil: “O Soldado de Chocolate”, escrita por Pernambuco de Oliveira.

 

Na mesma sala de espetáculos havia uma peça para adultos: “O dote”, onde também conseguiu um papel. Gianfrancesco Guarnieri o assistiu e gostou. Daí começou realmente sua carreira. Foi para o “Teatro dos Novos Comediantes”, depois para o “Teatro de Arena”- suas escolas - porque ali estavam os grandes da época como Guarnieri, Lima Duarte, Chico de Assis, Riva Nimitz. Nestes espaços, Milton fez cursos de interpretação e dramaturgia, o que lhe rendeu uma ampla visão do teatro. Daí, passar para a televisão foi um pulo. Trabalhou na TV Tupi de São Paulo e no teatro ao mesmo tempo. Ingressou também no cinema. Sofreu com a ditadura e não temeu. Seguiu abrindo portas para o negro na mídia.

 

Sua estreia profissional acorreu em 1957, no Arena, na peça “Ratos e Homens”, de John Steinbeck. Ali também estudava história do teatro, impostação de voz, postura, filosofia, arte e política. Em uma entrevista para a Memória Globo Milton declarou que o teatro foi a grande salvação da sua vida, já que o preconceito racial foi um trauma enfrentado por meio da arte.

 

Gonçalves chegou a tentar a carreira política, nos anos 90, ao candidatar-se a governador do estado do Rio de Janeiro em 1994 pelo PMDB ( atual MDB). Na ocasião, obteve apenas 4% dos votos. Também foi porta voz das “Diretas Já”, ao lado de Osmar Santos, e ocupou cargos públicos de superintende da Rádio Brás e como membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio, de Artes do Paço Imperial e da Fundação Palmares. Milton tinha um sonho: ver o Brasil ser presidido por um negro.

 

Foi homenageado no carnaval de 2021 pela Acadêmicos de Santa Cruz com o enredo "Axé, Milton Gonçalves! No Catupé da Santa Cruz".  Como disse o carnavalesco da escola, Cid Carvalho, “ele é um negro que não aceitou o lugar que a sociedade tentou lhe impor”. O enredo foi uma proposta de liberdade para o negro, seja ele uma criança ou um velho, ele pode ir onde quiser, alcançar o quiser... Milton foi um desses.

 

Sua religião foi o candomblé e seu amor foi Oda Gonçalves, com quem ficou casado de 1966 até o fim de sua vida. Deixou três filhos, incluindo o ator Maurício Gonçalves.

 

Milton fez mais de 40 novelas só na Globo, onde também atuou em programas humorísticos e minisséries de sucesso como as primeiras versões de “Irmãos Coragem” (1970), “A Grande Família” (1972) e “Escrava Isaura” (1976). Outros trabalhos de destaque do ator foram as séries “Carga Pesada” (1979) e “Caso Verdade” (1982-1986). A última novela que o ator Milton Gonçalves participou na TV Globo foi “O Tempo Não Para” (2018), quando interpretou o catador de materiais recicláveis Eliseu. O grande ator também se transforma em um grande diretor de novelas. Foi em “Irmãos Coragem”, em 1970, que Milton dirigiu com excelência, além  dos primeiros capítulos de “Selva de Pedra”, ambas de Janete Clair.

 

Sua atuação como Pai José, na segunda versão da novela “Sinhá Moça” (2006), lhe rendeu a indicação para o prêmio de Melhor Ator no Emmy Internacional. A estatueta do Prêmio Emmy foi símbolo de honra, junto com a bandeira do time do coração (Flamengo), no momento do velório.

 

 

Respeitado no mundo artístico dentro e fora do Brasil, o ator, diretor e produtor deixa um grande legado e uma lacuna no audiovisual brasileiro. Caberá às novas gerações dar continuidade à sua luta por um protagonismo negro na tela. Milton se considerava um homem feliz “em busca da verdade”, com o desejo eterno de que “O Arquiteto do Universo cubra a todos de luz”.

 

 

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