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A CUT Rio apoia o manifesto “Estado Geral da Cultura”

Publicado: 13 Agosto, 2020 - 17h56

Escrito por: CUT Rio

Divulgação
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A CUT Rio apoia o manifesto “Estado Geral da Cultura”, lançado pelo cineasta Silvio Tendler pela defesa da cultura e da arte nacionais. Os governos Federal, Estadual e Municipal, dia após dia, tentam provocar um apagamento da área cultural do nosso país. Trata-se de um projeto de governo, com ataques e perseguições a ideologias que não se alinhem com a extrema-direita.

Mesmo com o setor cultural empregando cerca de 5,2 milhões de pessoas, segundo dados do IBGE de 2018, grupos bolsonaristas já chegaram a divulgar uma lista com mais de duzentos nomes de artistas e personalidades que deveriam ser boicotados pelo presidente fascista. Assim como era feito durante a ditadura militar. 

Para contrapor e enfrentar a política de destruição imposta à arte, cultura e memória, um grupo composto por cineastas, intelectuais, artistas, professores, jornalistas e sindicalistas, liderado pelo cineasta Silvio Tendler, busca ações de combate à destruição, imposta principalmente pelo governo de Bolsonaro. É preciso impedir ao desmonte da Cinemateca, Funarte, Ancine, Casa de Ruy Barbosa e a intervenção no Iphan, além da ordem de despejo da Escola de Cinema Darcy Ribeiro. Uma luta que depende do esforço de todos. 

Manifesto do cineasta Sílvio Tendler, cuja íntegra publicamos a seguir: 

Estado Geral da Cultura 

Uma elite gananciosa que quer tudo e um povo que vive com quase nada, frequenta um SUS fragilizado há anos e escolas ineficientes, fruto do congelamento de investimento público. 

Arte, cultura e ciência assediadas pela censura econômica e política e por uma doutrina terraplanista. Volta Galileu e vem educar esta gente! 

A extinção do Ministério da Cultura é a tentativa de destruir nossa superestrutura cultural e ideológica para fragilizar-nos como nação.  Um país não se limita às suas fronteiras físicas e geográficas. Ele é o seu povo. E o que caracteriza o povo é a sua cultura. 

Somos milhões de trabalhadores da cultura paralisados, dispersos ou desempregados. O governo flerta com o totalitarismo e nos intimida com o poder miliciano. 

Estamos vivendo uma das maiores crises sanitárias de todos os tempos. Pandemia trágica para milhares de famílias brasileiras, em especial para as mais humildes, completamente abandonadas pelo poder central. 

Recolhidos em nossas casas, velhos e novos filmes, músicas, atividades artísticas nos fazem companhia nessa solidão imposta pela pandemia. Nesse momento as pessoas percebem a importância da arte em suas vidas. 

Queremos um mundo em que o Estado seja voltado para o bem-estar de seus cidadãos e cidadãs, ou que seja voltado para facilitar a acumulação de bens de uns poucos milionários? 

Qual será nossa relação com a natureza, convívio harmônico ou exploração predatória como tem sido até agora? 

O futuro é nosso, cabe a nós decidir. 

Estados Gerais da Cultura é um movimento coletivo, autônomo e independente, para atuar na construção desse futuro, somos os verdadeiros protagonistas da nossa História. 

Que futuro queremos no mundo que emergirá da pós-pandemia? Um mundo solidário em que a centralidade seja o ser humano e a natureza ou continuaremos reféns do cassino financeiro? 

A reconstrução do Ministério da Cultura é apenas um primeiro passo necessário para o restabelecimento da nossa unidade como agentes culturais. Hoje assistimos ao desmantelamento da Cinemateca Brasileira, matriz da memória imagética do país; desmantelamento da Casa de Rui Barbosa,  importante centro de documentação, pesquisas, reflexão e documentação; intervenção no IPHAN permitindo a degradação do nosso patrimônio arquitetônico a serviço da especulação imobiliária; silenciamento da FUNARTE e suas atividades ligadas às artes plásticas, dança, fotografia; e a ANCINE com o sequestro do FSA-Fundo Setorial do Audiovisual, deixando a atividade quase que totalmente paralisada. 

Hoje somos milhões de trabalhadores desempregados num setor que gera arte, cultura e entretenimento, além de dividendos para o país. O Ministério da Economia é incapaz de enxergar a indústria criativa como um setor altamente rentável, que gera recursos e prestígio internacional para o Brasil. 

A reconstituição do Ministério da Cultura como Organismo de Estado, independente da ingerência de governos, é URGENTE e NECESSÁRIA. 

Muitos nos perguntam como isso será possível diante de um governo como o que temos. Qual a possibilidade concreta de sairmos vitoriosos neste embate? Respondo: homenageando Therezinha Zerbini e dizendo que lutaremos com a mesma humildade e tenacidade que a levaram à luta pela Anistia no auge da ditadura, ou a lucidez que levou o jovem deputado Dante de Oliveira a lutar pelas Diretas Já. 

Somos artistas, sabemos fazer arte e nos comunicar com o público. Essa é nossa especialidade. Cada um da sua forma, com a técnica e a estética que tiver à mão, saberá falar da importância da nossa luta: fazendo teatro na rua ou na rede, filmes que viralizam nas mídias eletrônicas, grafitando, se apresentando nas comunidades ou onde for, combateremos a política de terra arrasada e começaremos a construir um mundo novo. 

A reforma trabalhista, que nos prometia milhões de empregos e gerou milhões de desempregados, além do enfraquecimentos dos sindicatos e da perda dos direitos dos trabalhadores, o enfraquecimento da previdência. Só cortaram direitos dos mais pobres, preservaram os privilégios dos mais ricos, o que nos leva a temer pelo nosso futuro. 

Pensemos no ano de 2022, não pelo processo eleitoral que vai se estabelecer mas pela comemoração do bicentenário da Independência, pelo centenário da Exposição Universal e pelo centenário da Semana de Arte Moderna que projetaram o Brasil no século XX. Nós, trabalhadores da Arte e da Cultura, juntos com historiadores, sociólogos, geógrafos, sindicalistas, militantes comunitários, de gênero, e de quem mais quiser tomar seus destinos nas próprias mãos será bem-vindo. 

Portanto, conclamamos a todos: com arte, ciência e paciência, mudemos o mundo. 

A convocação do Estado Geral da Cultura tem como objetivo colocar na mesma sala, de forma espontânea, pessoas das mais diversas áreas de atuação do conhecimento interessadas no avanço rumo a um futuro de bem-estar social para todos, tendo como alavanca a ação artística e cultural. Convocamos todos a ser protagonistas da própria História, através de seus meios de expressão e ação. Tudo o que as ferramentas tecnológicas permitem utilizemos como instrumento de conscientização, luta e fortalecimento respeitando as nossas tradições e nosso patrimônio étnico-cultural. Como disse o jornalista italiano Walter Veltrone, o passado é confortável, mas o único lugar que nos abrigará é o futuro. Assim, que o façamos justo e prazeroso para todos. Com arte, ciência e paciência construiremos um mundo melhor.